A "troika" medieval

Na Viagem Medieval em Santa Maria da Feira foram cobrados 2 euros por cada visitante com mais de 1,30 m de altura. Abaixo dessa estatura só as crianças não pagaram (adultos com nanismo não escaparam). Nos outros anos não se pagava nada. Esta medida foi justificada pela câmara municipal da Feira, como se lê no Ionline, através do seu Presidente Alfredo Henriques, como sendo uma forma de "substituir" os 200 mil euros que a autarquia cortou, no contexto global dos 900 mil necessários à edição de 2011, por receitas próprias do evento. "É uma cobrança simbólica, mas tem importância", garante o autarca, "não é para a câmara ganhar dinheiro". A vereadora da cultura, em entrevista à RTP, confirmou a manobra financeira acrescentando que o objectivo principal da cobrança foi melhorar o evento.
Isto seria uma decisão aceitável, face à situação de crise, tanto que o valor até é irrisório, se ignorar-mos o cálculo obtido com esta receita. Se multiplicarmos o número de visitantes que a organização afirma receber todos os anos, mais de 500.000 (50.000 por dia), pelos “simbólicos” 2 euros, temos um resultado de mais de 1 milhão de euros. Isto é 5 vezes mais o tal corte que a câmara pretende compensar. Algo não bate certo nesta história, que de medieval tem tudo e nada. Ou a organização estaria a prever uma forte quebra na afluência do público por razões que se adivinhavam e tratou de se precaver para pagar aos intervenientes ou estávamos perante mais um exemplo de aproveitamento “troikano”, avidez por dinheiro à custa da ignorância de muitos, os mesmos do costume, a fim de obter uma receita que vai servir para tudo menos cultura e propósito de um acontecimento que é um verdadeiro êxito. Saliente-se que o Imaginarius (Festival Internacional de Teatro de Rua) esteve e está em risco de não se realizar, ou seja, o conceito cultural desta autarquia "é mais bifanas"...
Não se entende como é possível usar a boa vontade e agrado do visitante, sacando-lhe com subtileza uma pequena quantia, que até lhe passa despercebida e para alguns aceitável, com um argumento “conjuntural” no intuito de dar um mega golpe (à sua escala) "encarneirando" a massa humana apanhada de surpresa. 
Um evento popular e cultural desta dimensão não escapa ao apetite voraz do lucro, assim como também não passa despercebido ao cidadão atento e crítico, que se apercebe cada vez mais das patranhas engendradas na confusão destas perturbações que vivemos. No JN em 09-07-2010, aquando da realização da edição anterior, há um ano, podia ler-se: «A espectacularidade do evento tem trazido nos últimos anos mais de 500 mil visitantes à Feira. Por isso, o presidente da Câmara, Alfredo Henriques, garante os cortes financeiros provocados pela crise não se vão fazer sentir na iniciativa. “Hoje é impensável não realizar a Viagem Medieval”. “É o evento que maior volume de negócio traz para as associações e comércio local. É um investimento com retorno garantido” disse».
No final desta 15ª edição, a organização anunciou que o evento tem agora garantida a sua auto-sustentabilidade, depois de ter registado 229 mil entradas pagas no recinto. A 15.ª edição do evento foi a primeira a funcionar com entrada paga em determinados horários e o administrador da Feira Viva - a empresa municipal que organiza a Viagem em parceria com a autarquia e com a Federação das Colectividades de Cultura e Recreio da Feira - garantiu ao Expresso que a afluência de público superou as expectativas. "Contávamos vender 200 mil pulseiras e afinal vendemos 229 mil", revelou.

Portanto, era o resultado que já todos esperávamos. Os que gentilmente pagaram, vão continuar a acreditar que os valores são baixos... em prol da cultura.




(post actualizado em 12-09-2011)

3 comentários:

  1. mas acha mesmo que são 500 mil pessoas diferentes durante toda a viagem?! falava-se em 50 mil visitas diárias! não necessariamente 50 mil pessoas diferentes todos os dias. De qq formas, e apesar de ser uma decisao que já fora tomada bem antes desta coisa da troika (salvo erro já estava tomada em Outubro de 2010), não deixo de considerar algo exagerado o preço de 2€, embora tenda a concordar que um preço de 0,50 ou mesmo 1€ seria aceitável para as dimensões que o evento ganhou. De qq forma, até meio da semana haviam info's de cerca de 100 mil pulseiras vendidas (200 mil euros, portanto). De qq forma, tal nao significa q se venda igual nº até ao final do evento.

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  2. Não fazemos ideia de quantas pulseiras vão ser vendidas. Mas é um dado que vai ser divulgado e se fôr verdadeiro, vamos ter todo o interesse em conhecer. O número de "mais de 500 mil" foi avançado pela própria organização aquando da promoção do evento em 2010, passando a ideia de que se trata dum evento de grande importância. Já este ano, com a cobrança, querem passar a ideia de que já não são tantos assim. Certo é que a vereadora da cultura foi à RTP dizer que, não tendo dados concretos, esse número é o que consideram e que com as pulseiras, este ano, é que vão ter um número mais fiável, sendo que nunca saberão quantas visitas para além dos 500 mil, visitas essas de pessoas que entram mais que uma vez e as que entram no horário gratuito. Para confirmar isto, o presidente da câmara disse que 60 por cento destes 500 mil visitavam mais que uma vez.

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  3. Pagar para entrar num espaço em que tudo o que consumires é pago,razão pela qual este ano não pus lá os pés e normalmente somos 4/5 pessoas.Acho esta medida uma vigarice,ponto

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